<T->



          O Velhinho que  
          Virou Criana

          Antonio Hohlfeldt

<F->
Impresso Braille, volume nico,
na diagramao de 28 linhas por
34 caracteres.
<F+>
        
           Volume nico

           Ministrio da Educao
           Instituto Benjamin Constant
           Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
           22290-240 Rio de Janeiro 
           RJ -- Brasil
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          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --
<p>
          Copyright do texto (C) 
          Antonio Hohlfeldt, 2006
          Copyright das obras de Mario 
          Quintana (C) Elena Quintana, 2006
          Copyright das ilustraes (C) 
          Renato Alarco, 2006
          Copyright da foto (C) Valmoci 
          Vasconcelos, 1993
 
          Todos os direitos de edio 
          reservados  Editora Mercuryo 
          Ltda.
          
          Alameda dos Guaramomis, 1267 
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  E-mail ~,ione@mercuryojovem.~
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<p>
                                I
          Dados Internacionais de 
          Catalogao na Publicao 
          (CIP) 
         (Cmara Brasileira do Livro. SP. Brasil)

  Hohlfeldt, Antonio
  O velhinho que virou criana / Antonio Hohlfeldt. -- So Paulo, SP :
Mercuryo Jovem, 2006.

  1. Literatura infanto-juvenil I. Ttulo.

06-6614            CDD-028.#e

          ndices para catlogo 
          sistemtico:

<R+>
 1. Poesia : Literatura infantil 028.#e
 1. Poesia : Literatura infanto-juvenil 028.#e
<R->
<p>
  Formado em Letras pela UFRGS, com mestrado e doutorado em 
Literatura pela PUCRS, o gacho Antonio Hohlfeldt  escritor, 
jornalista, ensasta e professor.
  Autor de vinte e sete ttulos de fico para crianas e jovens. 
dentre eles *Por, A menina das bolhinhas de sabo, A briga da porta 
com a parede, Contrabando no Taim, Anjo Malaquias e A escolinha do 
Lionel*, Antonio Hohlfeldt tambm assinou dezenas de ensaios: 
*Cotidiano da escrita, Conto brasileiro contemporneo. Mudanas, 
Teorias da comunicao e ltima Hora -- Populismo nacionalista nas 
pginas de um jornal*. participando de seminrios nacionais e 
internacionais. Como ensasta,  ainda o nico autor a participar de 
diferentes edies dos Cadernos de literatura
brasileira. da Fundao Moreira Salles. tendo escrito sobre Adlia 
Prado. Igncio de Loyola Brando, Carlos Heitor Cony 
                             III
e rico Verssimo.
  Antonio Hohlfeldt atualmente  o nico crtico teatral em atividade 
em Porto Alegre, mantendo coluna semanal no Jornal do Comrcio, s 
sextas-feiras, alm de participar semanalmente do programa Cmera 2, 
da TV Guaba.
  Depois de permanecer durante dezessete anos como jornalista 
cultural do Correio do Povo, inclusive como colaborado! e editor do 
suplemento literrio Caderno de Sbado, Antonio integrou a equipe do
Dirio do Sul e assinou colunas no jornal Tribuna da Imprensa. Rio de 
Janeiro e na revista Isto . So Paulo.
  Professor universitrio, lecionou na antiga FIDENE, hoje 
 UNIJU; na UCS, Caxias do Sul; na ULBRA, atuando nos campos da Literatura 
brasileira, Teoria literria e Teoria da comunicao, e na PUCRS, nos 
cursos de graduao e ps-graduao na rea de Comunicao social. Em 
1999, tornou-se coordenador do Programa de ps-graduao em 
Comunicao social da FAMECO -- PUCRS. cargo que deixou em fins de 2002, para assumir a funo de 
vice-governador do Rio Grande do Sul. Foi durante vinte dois anos 
vereador em Porto Alegre.
  Com *O velhinho que virou criana*, homenagem ao centenrio de 
Mario Quintana, Antonio Hohlfeldt, o escritor, e Renato Alarco. o 
ilustrador, estriam na Mercuryo Jovem.

  *O velhinho que virou criana*, homenagem do porto-alegrense 
Antonio Hohlfeldt ao gacho de Alegrete Mario Quintana. Se estivesse 
vivo, Mario teria completado 100 anos no dia 30 de julho de 2006.
  A julgar por seus escritos "A nossa vida nunca chega ao fim", Mario 
permanece vivo. Como criar uma trajetria biogrfica de Quintana, se 
"Minha vida est 
<p>
                                V
nos meus poemas, meus poemas so eu mesmo, 
nunca escrevi uma vrgula que no fosse uma confisso"? Antonio, que 
conviveu com o ser humano, selecionou significativas passagens da 
trajetria de Mario, cujos poemas e narrativas enriquecem a delicada 
trama criada pelo escritor porto-alegrense. Quem vira criana tem o 
futuro pela frente assim Mario Quintana se eterniza em sua vasta e 
magnfica obra.

  Mario Quintana nasce no dia 30 de julho de 1906, em Alegrete, RS. Com 
sete anos, auxiliado pelos pais, aprende a ler, tendo como cartilha o 
jornal Correio do Povo.
  Seus pais ensinam-lhe, tambm, rudimentos de francs.
  Em 1914 inicia seus estudos na Escola Elementar Mista de Dona Mimi 
Contino. Em 1915, ainda em Alegrete, freqenta a escola do mestre 
portugus Antnio Cabral Beiro, concluindo o curso primrio. Nessa 
poca trabalha na farmcia da famlia.  matriculado no Colgio 
Militar de Porto Alegre no ano de 1919 de onde sai em 1924. Comea a 
produzir seus primeiros trabalhos, que so publicados na revista 
*Hyloea*, rgo da Sociedade Cvica e Literria dos alunos do colgio. 
Aos dezoito anos, trabalha por trs meses na Livraria do Globo. Aos 
trinta anos retorna  Livraria
do Globo, dirigida por rico Verssimo. Em 1925 retorna
a Alegrete e passa a trabalhar na farmcia do pai.
  Em 1926 a me falece. Um ano depois, falece o pai.
  Em 1929 comea a trabalhar na redao do dirio O Estado do Rio 
Grande. No ano seguinte a Revista do Globo e o Correio do Povo 
publicam seus poemas. Em 1930 vai para o Rio de Janeiro lutar na 
revoluo liderada por Getlio Vargas como voluntrio do Stimo 
Batalho de Caadores 
                             VII
de Porto Alergre. Volta a Por-
to Alegre em 1931 e  redao 
do jornal O Estado do Rio Grande. Em 1940 inicia a 
publicao de seus livros com a Rua dos Cataventos, Editora Globo, 
RS. A este se seguem mais de trinta e cinco ttulos, alguns de 
literatura infantil. Participa de um sem-nmero de antologias no 
Brasil e no exterior.  considerado um grande tradutor. O poeta e 
escritor Mario Quintana falece, em Porto Alegre, no dia 5 de maio de 
1994.
  
  Renato Alarco nasceu no Rio de Janeiro e mora em Niteri, RJ.
  Designer grfico, com mestrado em ilustrao pela *School of Visual 
Arts*, de Nova York, tem trabalhos publicados no caderno de literatura 
do New York Times, em revistas como a Stocks and Commodities e 
Playboy. Publica regularmente na revista Cricket, lder no segmento 
para crianas e jovens nos Estados Unidos. Tambm ilustrou livros 
infantis para as editoras americanas *Simon & Schuster, Farrar, 
 Strauss & Giraux* e *McGraw Hill*.
  Suas ilustraes j foram expostas no AIGA, *American Institute of 
Graphic Arts*, na New York Public Library, na Bienal de Bratislava, 
Eslovquia, e tambm em Tquio e Nagano, quando ganhou o prmio NOMA 
-- UNESCO.
  No Brasil, alm de ilustrar para as mais importantes editoras 
brasileiras, participou da criao da SIB, Sociedade dos ilustradores 
do Brasil -- ~,www.sib.org.br~, -- e faz parte do grupo que anualmente 
promove o evento Ilustra Brasil.
  Para Renato Alarco, o ilustrador  um artista peculiar, cujo 
trabalho consiste em comunicar idias e conceitos por meio das 
linhas, cores, texturas e formas. 
                              IX
E foi este desafio e, sobretudo o 
desejo de contar histrias atravs da imagem que o levou a escolher o 
caminho da ilustrao.
  O que mais me estimula no meu ofcio de ilustrar, diz o artista,  
encarar diariamente a pgina em branco, e dali inventar mundos e 
gentes, dar visualidade  palavra.

~,www.renatoalarcao.com.br~,
<p>
<To velhinho criana
<T+1>

<R+>
"E me transmuto... iriso-me... estremeo... 
 Nos leves dedos que me vo pintando!" 
 "Minha morte nasceu quando eu nasci. 
 Despertou, balbuciou, cresceu comigo... 
 E danamos de roda ao luar amigo
 Na pequenina rua em que vivi."
 "Tudo  definitivo, tudo  to agora que 
 at o relgio, o velho bruxo, est parado."
<R->

  Era uma vez...
  Bem, era uma vez um velhinho chamado Mario. Mas a maioria das 
pessoas no o chamava desse modo. Preferiam o seu nome de famlia, 
quer dizer, o sobrenome, que era Quintana. Assim, Mario -- o Quintana 
-- era chamado muito mais como Quintana do que como Mario.
O que fica meio engraado, vocs no acham?
  Mas era assim.
  Conheci Mario -- o Quintana -- na redao do jornal. Eu era bem 
jovem e recm tinha comeado a trabalhar. Admirava aquele homem j 
mais velho -- para mim ele era quase idoso, que  uma maneira mais 
sria de ser velho -- e tratava de saud-lo sempre que cruzava com 
ele.
  -- Oi, Quintana -- eu dizia.
<8>
  -- Hein? -- O Mario respondia.
  Como vocs notaram, o dilogo era animado. Mas o melhor era quando a 
gente se encontrava no barzinho do jornal. Da a coisa esquentava. 
Quintana gostava de cinema. Eu tambm. Ele ia todos os dias ao 
cinema. Eu tambm. Ou quase. Ele gostava da Greta Garbo. Eu, da Leila 
Diniz. Assim, a gente sempre tinha assunto pra falar.
  Como eu ia dizendo, conheci Mario -- o Quintana -- ainda 
<p> 
 jovem. Mas os anos foram passando, eu fiquei mais velho, ele se tornou mais 
velho que eu e um dia... que susto!... Um dia, Mario -- o Quintana -- 
estava mesmo velho!
<9>  
  Mario jamais casou. Da a mania de morar em hotis. No sei por 
que, mas acho que  porque Mario -- o Quintana -- ele era... um pouco 
distrado. Da, morar em casa, sozinho, no dava certo:
  -- ele esquecia chaleira no fogo...
  -- ele deixava aberta a porta de casa...
  -- ele trocava o domingo pelo dia de semana e ia trabalhar...
  Ento, o que sei  que, desde que o conheci, ele sempre morou em 
hotel. O mais bonito, o mais famoso, o mais misterioso, era o Hotel 
Majestic. Quando Mario morreu, o hotel trocou de nome: virou centro 
cultural e foi batizado como Mario -- o Quintana!
<10>

<R+>
 Mas Mario, mais velho,
 foi ficando pequenininho,
 foi se tornando mirradinho,
 foi perdendo os dentes,
 foi ganhando um sorriso desamparado que dava d s de olhar.
<R->

  E quando ele falava, ento, a voz do Mario -- o Quintana -- que j 
no era l muito forte, ficou fininha, fraquinha, quase desaparecendo.
  Mario ficou velhinho, foi virando uma criana, foi	virando 
passarinho.

<R+>
 Como se fosse o primeiro passarinho do mundo 
 Na primeira manh do mundo,
 Voa e revoa
 Por cima do mundo, por cima de tudo,
 Por cima da praa modesta
 Onde velhinhos sentados 
 Fazem um pouco de sesta."
<R->

<12>
  Na verdade, ele voltou a ser o que nunca deixara de ser: uma 
criana grande, iluminada e encantadora, que cativou a todos ns, 
seus leitores. Quando de sua morte, em vez de ficar triste, ele 
festejava:

<R+>
 No Cu vou ser recebido
 com uma banda de msica.
 Tocaro um dobradinho
 daqueles que ns sabemos
 -- pois nada mais celestial
 do que a msica que um dia ouvimos
 no coreto municipal
 de nossa cidadezinha..."
<R->

  De fato, Mario -- o Quintana -- deve ter saudades de sua 
cidadezinha, porque foi numa cidadezinha, num dia 30 de julho de 
1906, que ele nasceu. A cidadezinha se chama Alegrete. Ficava no meio 
de nada: era uma terra ondulada sem fim, cheia de verdes, no vero; 
mas doda de geada forte, durante o inverno.
  "Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima 
prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que no 
estava pronto."
<14>  
  Mario -- o Quintana -- no nasceu, propriamente dito. Ele apareceu, 
meio que de repente:

<R+>
 "Quando os meus olhos de manh se abriram, 
 Fecharam-se de novo, deslumbrados".
<R->

  Conta o prprio Mario que ainda antes de nascer criou algumas 
complicaes l no Cu:
  "E quando se aproximou a hora, o Anjo da Encarnao perguntou-lhe:
  -- Que queres ser na face da Terra?
  -- Um polgono regular estrelado.
  -- O qu?!
  -- Um polgono regular estrelado -- repetiu imperturbavelmente a 
alma do nascituro.
  Mais um... --  pensou o Anjo. Mas, como os anjos e os poetas so 
os nicos que no riem dos loucos, limitou-se a objetar:
  -- E por que no um poliedro? Vais viver num mundo de trs 
dimenses e bem sabes que um polgono apenas tem duas. L s 
existirias na face do papel... e no propriamente na face da Terra.
  -- Por isso mesmo.
  O Anjo desta vez no compreendeu muito bem e retirou-se, dando de 
asas.
  E foi assim que, quando chegou a hora, veio ao mundo mais um louco".
  Pelo que dizem, contudo, Mario foi um menino tranqilo:

<R+>
 "No te movas, dorme, dorme
 O teu soninho tranqilo.
 No te movas (diz-lhe a Noite)
 Que inda est cantando um grilo..."
<R->

  Desde cedo, Mario -- o Quintana -- gostava de imaginar coisas e 
inventar a prpria vida:
  "Se a gente pudesse escolher a infncia que teria vivido, com que 
enternecimento eu no recordaria  agora aquele velho tio de perna de 
pau, que nunca existiu na famlia, e aquele arroio que nunca passou 
aos fundos do quintal, e onde amos pescar e sestear nas tardes de 
vero, sob o zumbido inquietante dos besouros..."
<17>
  E ele ficava sonhando:

<R+>
 "... mas eu queria ter nascido numa dessas casas de meia-gua 
 com o telhado descendo logo aps as fachadas
 s de porta e janela
 e que tinham, no sculo, o carinhoso apelido
 de cachorros sentados.
 Porm nasci em um solar de lees
 (... escadarias, corredores, stos, pores, tudo isso...)
 No pude ser um menino de rua..."
<R->

<18>  
  De fato, Mario -- o Quintana -- foi sempre um menino relativamente 
quieto. Enfrentou aquelas doenas de criana, mas seus pais ficavam 
preocupados e tratavam de tranc-lo em casa. Por isso, ele no era 
muito de ir para a rua brincar com as outras crianas, como recorda:
  "Eu fui um menino por trs de uma vidraa -- um menino de aqurio.
  Via o mundo passar como numa tela cinematogrfica, mas que repetia 
sempre as mesmas cenas, as mesmas personagens.
  Tudo to chato que o desenrolar da rua acabava me parecendo apenas 
em preto e branco, como nos filmes daquele tempo".
<19>
  Mas quando chegou a hora, foi, como todas as crianas, para a 
escola:
  "De cada lado da sala de aula, pelas janelas altas, o azul convida 
os meninos, as nuvens desenrolam-se, lentas, como quem vai inventando 
preguiosamente uma histria sem fim... Sem fim  a aula: e nada 
acontece, nada... Bocejos e moscas. Se ao menos, pensa Margarida, se 
ao menos um avio entrasse por uma janela e sasse pela outra!"
  Naquelas salas, ele iniciou as primeiras leituras:
  "Aprendi a escrever lendo, da mesma forma que se aprende a falar 
ouvindo. Naturalmente, quase sem querer, numa espcie de mtodo 
subliminar. E meus tempos de criana, era aquela encantao. Lia-se 
continuamente e avidamente um mundaru de histrias (e no estrias) 
principalmente as do Tico-Tico. Mas lia-se corrido, isto , frase 
aps frase, do princpio ao fim".
  Mario ia lendo de tudo um pouco:
  "As minhas primeiras leituras em matria de romance foram uma coisa 
muito engraada: o primeiro volume das Minas de Prata, de Jos de 
Alencar, o primeiro volume da Famlia Agulha, creio que de Bernardo 
Guimares. Por onde andariam os segundos volumes? Minas de Prata 
foi um mundo encantado, porque no era o mundo da nossa poca. A Famlia Agulha 
at me dava dor do lado, de tanto rir".
<21>
  O menino-poeta era curioso, gostava de ficar imaginando coisas.
  "Quando eu lia O Tico-Tico, uma das coisas que mais me 
impressionavam era o que os personagens fariam depois de terminada a 
histria."
  Naquele tempo, era muito mais difcil estudar do que hoje em dia.
 
<R+>
 "Era  luz dos lampies de querosene
 Que a gente fazia os deveres escolares.
 Nas paredes, So Jorge e o seu cavalo branco."
<R->
 
  Ser um bom aluno, contudo, no quer dizer gostar de todas as 
disciplinas que se deve estudar:
  "Quando colegial, como eu gostava do cheiro mido das razes dos 
vegetais! Porm, ao lado desse mundo natural, queriam fazer-me 
acreditar no mundo seco das razes quadradas, que para mim tinham 
algo de incompreensveis signos de linguagem marciana".
<22>  
  E ento, aconteceu uma coisa verdadeiramente inusitada!

<R+>
 "Mas a minha mais remota recordao 
 s muito tempo depois eu vim a saber que era um cometa 
 e precisamente o cometa de Halley
 (...) naquele tempo de espantos e encantos 
 o cometa de Halley no se contentava em parecer um cavalo, apenas: o cometa de Halley era um cavalo!"
<R->

  O cometa de Halley, que apareceu em 1910, foi visto em todo o mundo 
e foi um deslumbramento para crianas e adultos. Naquele tempo, a 
gente conhecia muito pouco da Terra, que dir sobre o Cu...
  "A gente ainda no sabia que a Terra era redonda.
<23>
  E pensava-se que nalgum lugar, muito longe, deveria haver num velho 
poste uma tabuleta qualquer -- uma tabuleta meio torta e onde se lia, 
em letras rsticas: FIM DO MUNDO."
  Desde pequeno, Mario j pensava em ser poeta: 
 
<R+>
 "Quando eu era pequenino
 Atirava rimas ao poema
 Como ossos a um cozinho..."
<R->
 
  Mais velho, ele vai recordar esses tempos:
   Eis que descubro um retrato meu, aos 10 anos.
Escondo, sbito, o retrato. Sei l o que estar pensando de mim 
aquele guri!"
  Coisa que a gente aprende logo, quando  pequeno,  a diferena 
entre as estaes do ano:
<26>
  "O Vero  um senhor gordo, sentado na varanda, suando em bicas e 
reclamando cerveja.
  O Outono  um tio solteiro que mora l no alto no sto e a toda 
a hora protesta aos gritos: Que barulho  esse na escada?!
  O Inverno  um vovozinho trmulo, com a boina enterrada at os 
olhos, a manta enrolada nos queixos e sempre resmungando: Eu no 
passo deste agosto, eu no passo deste agosto...
  A Primavera, em contrapartida --  ela quem salva a honra da famlia! --  uma menininha pulando na corda cabelos ao vento curtindo o frescor da chuva que desce do cu o cheiro de terra que sobe do cho o tapa do vento na cara molhada!"
  Nem sempre, contudo, as estaes so to animadoras como parecem  
primeira vista:
<27>
  "No vero d cupim na cabea da gente. Cupim ou caruncho? Ser a 
mesma coisa? No sei. Nem vou saber agora. Vero  isso mesmo: 
preguia de procurar palavras no dicionrio".
  A sada  a gente ficar inventando coisas... 
  "Desde pequeno, tive 
tendncia para personificar
as coisas. Tia Lula, que achava que mormao fazia mal, sempre 
gritava: Vem pra dentro, menino, olha o mormao! Mas eu ouvia o 
mormao com M maisculo. Mormao, para mim, era um velho que pegava 
as crianas.
<28>
  E Mario vai vivendo sua vida, descobrindo sua rua, seu bairro, sua 
cidade, descobrindo, enfim... o mundo!

<R+>
 "Ns marchvamos ao assalto
 Do mundo, pelas caladas claras:
 Tac! tac! a marselhesa dos sapatos!
 As tuas tranas pareciam loucas,
 Adalgiza, Nora, Lurdes,
 E nos teus olhos riam bandeirolas..."
<R->

  Logo cedo, Mario -- o Quintana -- iria comear a namorar.
  "O primeiro poema? Foi para a primeira namorada que se chamava 
Malsi. A vida  um ai que malsoa."
  "Minha primeira namorada me escutava com um ar de cachorrinho 
Victor:
  Todas aquelas minhas grandes mentirinhas eram verdade para ela... 
Para mim tambm!"
  Parece que Mario era mesmo um namorador...
  "Tambm me lembro que quando eu era gurizote e briguei mais uma vez 
para sempre com a Gabriela, deixei-a ali na praa (era domingo, 
depois da missa) e fui passar pela sua casa, pela sua calada, pela 
sua rua..."
<30>
  Tinha umas histrias engraadas como essa:
  Conheci uma moa meio biruta, que era um encanto.
Dizia coisas. Certa vez saiu-me com esta: O cristal  mais frgil 
porm muito mais sincero que o biscuit. Foi assim mesmo que ela 
disse, sem pausa e sem pontuao: tinha uma frase cantante e 
ininterrupta como conversa de vento, um encanto, repito. Seria 
biruta, mesmo?"
  A passagem dos quinze anos foi um momento importante na vida de 
Mario, como, alis,  importante na vida de todos ns.
  "Certa vez, tinha eu quinze anos, inventei uma histria que 
principiava assim:
  A primeira coisa que fazem os defuntos, depois de enterrados,  
abrirem novamente os olhos.
  Mas fiquei to horrorizado com essa espantosa revelao que no me 
animei a seguir avante e a histria gorou no bero, isto , no 
tmulo."
<31>
  De certo modo, Mario j era visto como *gente grande*: 
  "Quando completei quinze anos, compenetrado, meu padrinho me 
escreveu uma carta muito, muito sria: tinha at ponto-e-vrgula! 
Nunca fiquei to impressionado na minha vida..."
  Quando ficou bem mais velho, Mario -- o Quintana -- iria recordar 
esse tempo com muita saudade:
  Ah! os circos da minha infncia, os meus palhaos... a moa do arame...	
  A moa do arame, meu Deus!
  Mas isto j  outro assunto."
  Transformado em poeta conhecido, jornalista de responsabilidade, 
escritor que fazia tradues de outros escritores importantes, Mario 
-- o Quintana -- nunca deixou, contudo, de recordar sua infncia:
  "Havia um tempo de cadeiras na calada. Era um tempo em que havia 
mais estrelas. Tempo em que as crianas brincavam sob a clarabia da 
lua. E o cachorro da casa era um grande personagem. E tambm o 
relgio de parede! Ele no media o tempo simplesmente: ele meditava o 
tempo.
  E lamenta:
<34>
  "Havia, no me lembro agora se no Pas das Maravilhas, da Alice, ou 
se na Cidade de Oz, uma velha que morava num sapato... E ns que 
moramos em caixas de sapatos!"
  O tempo de chuva, especialmente, era muito gostoso...

<R+> 
 "Em cima do meu telhado,
 Pirulin, lulin lulin,
 Um anjo, todo molhado, 
 solua no seu flautim."
<R->

  E a tranqilidade da pequena cidade:

<R+>
 "Dorme, ruazinha...  tudo to escuro...
 E os meus passos, quem  que pode ouvi-los? 
 Dorme o teu sono sossegado e puro,
 Com teus lampies, com teus jardins tranqilos..."
<R->

<35>
   como se, desde l, no passado, ecoassem ritmos, cantigas e 
bailados que nos provocam:

<R+>
 "Dana. Velha. Dana. Dana.
 Pe um p. Pe outro p.
 Mais depressa. Mais depressa.
 Pe mais p. P. P.
 Upa. Salta. Pula. Agacha.
 Mete p e mete assento.
 Que o vento agita, frentico,
 O seu chicote de vento.
 Mansinho agora... mansinho
 At de todo cares...
 Que o Velho dorme de velho
 Sob os arcos do Arco-ris".
<R->

<36>
  E sempre, e sempre, as imagens das borboletas, dos grilos, dos 
cachorros e das estrelas...

<R+>
 "Ns ramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu.
 Havia os azulejos reluzentes, o muro do quintal, que limitava o 
mundo,
<p>  
 Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as 
estrelas..."
 O grilo canta escondido... e ningum sabe de onde vem seu 
canto... nem de onde vem essa tristeza imensa daquele ltimo lampio 
da rua..."
 Os grilos... os grilos... Meu Deus, se a gente 
 Pudesse
 Puxar
 Por uma
 Perna
 Um s
 Grilo,
 Se desfiariam todas as estrelas!"
<R->

  Triste de quem no teve um cachorro na infncia!
Para uma criana, criatura to necessitada de todos, to frgil e 
sozinha, um cachorro  um teste de amor desinteressado da parte 
dela...  ter uma outra criatura que dependa, enfim, de seus 
cuidados."
  Existem ainda outros bichos que chamam a ateno de Mario, querem 
ver?
  "Mas felizes, felizes esses peixinhos de aqurio: pensam que o seu 
universo  infinito."
  Nisto, o sapo engoliu uma estrela cadente, pensa ele... Era um 
vaga-lume."
   tudo bicho pequeno, bichinhos... que dava at para fazer um 
minijardim zoolgico...
  "O que h de mais tocante nesses infindveis carreiros de formigas  
que. elas parecem umas formiguinhas..."
  As pulgas saltam tanto porque tambm tm pulgas."
  "Muitas vezes, a gente nem sabe de onde  que Mario -- o Quintana -- tira tanta 
idia de bicho assim:

<R+>
 O gato  o nico que sabe manter-se com indiferena num salo. As 
outras indiferenas so afetadas".
 A aranha desce verticalmente por um fio 
 e fica pendendo do teto -- escuro candelabro: 
 devem ser feitas de aranha, desconfio, 
 as rvores de Natal do diabo".
 "Uma borboleta amarela?
 Ou uma folha seca
 Que se desprendeu e no quis tombar?"
<R->
  
  Mario gosta de fazer brincadeiras com os bichos:
<39>
 
<R+>
 "O ataque de uma borboleta agrada mais do que todos os beijos de um 
cavalo".
 "Ignoro nomes de passarinhos. No h de ser nada... Tambm nenhum 
passarinho sabe meu nome".
<R->
 
  Como eu disse, Mario -- o Quintana -- foi vivendo, esquecido de 
que vivia.
  Foi escrevendo poemas, que viraram livros.
  Foi publicando livros, que foram lidos.
  Mario, assim, foi ficando conhecido e isso fez com que ele fosse 
admirado e cada vez mais amado por seus leitores.
  Mas Mario continuava brincando com a vida como aquele menino que 
gostava de brincar com as coisas, quando criana.
  E o tempo passava...
<40>
  
<R+>
 "A vida  uns deveres que ns trouxemos para fazer em casa.
 Quando se v, j so 6 horas: h tempo... 
 Quando se v, j  6 feira...
 Quando se v, j passaram 60 anos!
 Agora,  tarde demais para ser reprovado...
 E se me dessem -- um dia -- uma outra oportunidade, 
 eu nem olhava o relgio 
 seguia sempre em frente...
 E iria jogando pelo caminho a casca 
 dourada e intil das horas."
<R->

<41>
  Mario -- o Quintana -- no viveu s 60 anos. Ele viveu at o dia 5 
de maio de 1994. Tinha ultrapassado os 87 anos, e at acho que ele 
ficou surpreso de poder virar o sculo... J imaginaram Mario -- o 
Quintana -- *secular*?...
<R->
  Como eu ia dizendo, conheci Mario -- o Quintana -- ainda jovem. Mas 
os anos foram passando, eu fiquei mais velho, ele se tornou mais 
velho que eu e um dia... que susto, um dia Mario -- o Quintana -- 
estava *mesmo* velho!
  Mario, mais velho, foi ficando pequenininho, foi se tornando 
mirradinho, foi perdendo os dentes, foi ganhando um sorriso 
desamparado que dava d s de olhar.
<41>
  E quando ele falava, ento, a voz do Mario -- o Quintana -- que j 
no era l muito forte, ficou fininha, fraquinha, quase 
desaparecendo. Mario -- o Quintana -- ficou velhinho, foi virando 
criana, foi ventando um vento bem ventoso.
<42>  

<R+>
 "E o vento vinha ventando 
 pelas cortinas de tule... 
 Menos um lugar na mesa, 
 Mais um nome na orao, 
 Da que consigo levara 
 Cruz, ncora e corao.
 (E o vento vinha ventando...) 
 Daquela de cujas penas 
 S os anjos sabero!"
<R->

<43> 
  A gente nunca ficou sabendo das penas de Mario -- o poeta Quintana -- 
s dos poemas. E por isso, a gente l, rel, volta a ler a poesia de 
Mario Quintana, como se a poesia dele nunca tivesse fim. Assim foi 
tambm a vida dele:
  "A nossa vida nunca chega ao fim. Isto , nunca termina no fim.
   como se algum estivesse lendo um romance e achasse o enredo 
enfadonho e, interrompendo, com um bocejo, a leitura, fechasse o 
livro e o guardasse na estante. E deixasse o heri, os comparsas, as 
aes, os gestos, tudo ali esperando, esperando... Como naquele jogo 
a que chamavam brincar de esttua.
  Como num filme que parou de sbito".

<44>
<R+>
 Como parou de sbito a vida, ela pode tambm recomear. E assim, infinitamente,
 para sempre... Mario -- o Quintana -- velhinho, 
 que depois vira criana, 
 que mais uma vez se torna velhinho, 
 e ainda de novo criana...
<R->

<R+>
Linha Piraj, Carnaval de 2006
<R->
 

               xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo

Fim da obra